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Crítica | Desejo de Matar (2018): Eli Roth em pele de Datena

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O diretor Eli Roth (“Bata Antes de Entrar”) é um nome consagrado para quem se diverte com filmes no estilo gore, mas está longe de ser um nome relevante, se pensarmos num cenário mais amplo. Diferente de seu padrinho, Quentin Tarantino (“Os Oito Odiados”), que utiliza os gêneros para se afastar dos clichês, Roth parece, a cada novo filme, utilizar clichês para se aproximar dos gêneros. Foi assim em sua estreia com “Cabana do Inferno”, quando o diretor potencializa a violência, sem acrescentar nada ao gênero. Ou com “Canibais”, uma produção inspirada no ciclo canibal realizado pelos italianos entre as décadas de 1970 e 1980 e orquestrada por Ruggero Deodato (“Holocausto Canibal”) – não por acaso ele fez uma ponta em “O Albergue 2”. Sem muitas surpresas, “Desejo de Matar” pouco se difere das demais obras de Roth.

O filme é um remake do homônimo lançado em 1974, e com poucas mudanças relevantes. Aqui, Bruce Willis (“Loucos e Perigosos”) dá vida ao médico Paul Kersey (um arquiteto interpretado por Charles Bronson, no original), um homem de bem, que vive feliz com sua família perfeita. Tudo muda quando criminosos invadem sua casa e atacam sua esposa e a filha. Frustrado com a ineficiência da investigação, o próprio médico decide ser responsável por sua vingança.

Há um sensacionalismo barato que acompanha o filme inteiro. No início, a família perfeita e sorridente é tudo o que o roteiro consegue oferecer. Não há sinais de conflitos internos, tudo é construído para reforçar a perda de Kersey. Essa visão superficial de personagens se mantém ao longo do filme, com exceção do protagonista, naturalmente. Ele passa do bom cidadão, para o justiceiro vingativo e esta é a única transformação que o roteiro se preocupa em tratar. O que faz de maneira superficial. A personagem de Bruce Willis mais se aproxima de um lunático, do que de alguém que passou por um trauma e foi corrompido pela dor e pela injustiça. Isso é reforçado pela montagem que evidencia o profissionalismo médico sendo quebrado pelo assassino insensível.

Mas não trata-se de um fracasso total. Existe um mérito particular na montagem, em especial durante a transformação/treinamento de Kersey para assumir seu papel de justiceiro. Ao som de AC/DC, Eli Roth consegue mostrar as duas faces do protagonista de maneira eficiente e dinâmica. Porém, a sequência parece ter sido jogada dentro de um filme. A diferença narrativa, se comparada ao restante do filme, é agressiva, não sendo nem ao menos sugerida antes ou depois. Para quem assiste, soa mais como se outra pessoa tivesse dirigido/montado este segmento.

Outro aspecto interessante é a comunicação que o filme estabelece através dos elementos presentes em cena. Há uma série de informações que complementam a história, em especial através de telejornais. Porém, a escolha do diretor nesse sentido assume um risco (e digo isso sem fazer juízo de valor), uma vez que há um arco narrativo que informa sobre a queda da taxa de criminalidade ao longo do filme. Ao colocar um civil se passando por justiceiro, Roth assume um posicionamento. Embora não haja uma discussão bem elaborada – ao contrário, o roteiro é essencialmente covarde sobre o tópico do armamento, apostando sempre no fácil – há uma definição bem clara: um homem armado pode fazer justiça, mesmo que para isso precise ultrapassar as barreiras da lei – afinal o filme não cansa de mostrá-lo como um herói.

Em sua essência, “Desejo de Matar” não consegue oferecer nenhuma novidade. O remake se alimenta de clichês (muitos dos quais o filme de 1974 estabeleceu), inclusive na escolha do seu protagonista, para exibir o fetiche do homem justo que pretende resolver as coisas à sua própria maneira. Nada que “Busca Implacável” já não tenha feito antes, e melhor. O gore é deixado de lado, embora não tenha sido descartado totalmente, o que não quer dizer que o diretor se leve mais a sério. Também não estamos livres de cenas construídas com humor barato, nem de soluções sustentadas por um deus ex machina. Ao final da projeção, fica difícil não lembrar dos programas que abusam do sensacionalismo e da espetacularização da tragédia alheia. Difícil, inclusive dizer, quem influencia quem.

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